quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Um breve comentário sobre “Língua: Vidas em Português”

O documentário “Língua – Vidas em Português” de Victor Lopes, lançado em 2004, traz uma reflexão em recortes sobre os falares (variações linguísticas) de vários povos que têm em comum a língua portuguesa. Os personagens são pessoas comuns, que vivem e fazem uso da língua no cotidiano, são povos com culturas diferentes, são anônimos, moradores de Moçambique, Portugal, Índia, França, Japão e Brasil. Há também os mediadores que são Martinho da Vila, Teresa Salgueiro, José Saramago, Mia Couto, João Ubaldo Ribeiro. Estes são personagens reconhecidos, estudiosos e dominantes da língua padrão, que discutem esse processo de aquisição e/ou apropriação de uma língua.
Observa-se que os falantes dessas regiões, protagonistas no filme, não estão interligados apenas pela língua, mas também pelas crenças, culturas e costumes, demonstrando que as variações não acontecem somente na língua, mas em todos esses aspectos. A língua se entrelaça a todo esse contexto, modificando a realidade e sendo modificada por ela. Porém, mesmo com essas interferências locais, ela mantém aspectos comuns e padronizados.
Dentro de um contexto de pós-modernidade, globalização e contemporaneidade, é importante a manutenção de um padrão da língua portuguesa para manter a sua universalidade, o que não significa a exclusão da diversidade nem da identidade dos povos falantes.
No filme há um ponto que chama a atenção, o fato de a língua não estar centrada nas novas tecnologias, (e-mail, Orkut, Blog), enfatiza-se a língua como um meio de comunicação, carregada de peculiaridades, tal como a realidade social dos protagonistas que representam a expressão de pessoas e de classes sociais menos favorecidas, remetendo-nos a uma reflexão da importância do sujeito para uma mudança da língua em um meio diverso e contrastante, sem acesso ou domínio de tecnologias.
O ensino da língua está ligado ao momento histórico e à cultura e deve inserir-se no contexto de cada povo. Não podemos nos centrar na língua padrão, mas na necessidade de seu uso com os grupos. Reconhece-se a necessidade do conhecimento da variedade padrão para a emancipação e o filme deixa clara esta idéia do acesso ao poder através da linguagem. Os protagonistas, intermediadores no documentário, fizeram uso da língua padrão para explicar o uso dos dialetos locais, e estes, embora estivessem em ambientes comuns, não usaram dialetos ou jargões locais. A apropriação da linguagem torna os falantes diferentes e iguais e possibilita maior interação entre os mesmos. Extrapola padrões, mas também incluí o sujeito na diversidade.
O papel que os escritores e a literatura desempenham depende do período histórico, da época, da cultura e das verdades vigentes. Atualmente a literatura resgata a espiritualidade, o foco no eu. Recuperam-se valores e se busca respeitar a identidade dos sujeitos e dos povos. O grande papel da literatura está sendo a representação dos dialetos. A linguagem é variada e retrata a diversidade social, cultural, histórica. Reflete a época, mas se respeita e/ou se segue a língua padrão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário